Naquele sábado, véspera da solenidade da conversão do Apóstolo Paulo, além das festividades nos bairros União e São Sebastião, que têm como Padroeiro este que é cognominado “Apóstolo das Nações”, de fato, era um dia muito especial: sessenta e cinco representantes das centenas de Jovens que participaram dos inesquecíveis “Retiros Espirituais da Pastoral da Juventude” pegaram estrada, saindo de Barbacena, Conselheiro Lafaiete e Belo Horizonte para chegarem a Viçosa e nos reencontrarmos…
Em meio a presentes e lembranças, lá estava ela. Despretensiosa. Porém, quando abri aquela Pasta, recheada de 25 cartas repletas de lembranças e recordações de momentos, que se constituem em episódios, que mexem com as estruturas de meu coração Sacerdotal, fazendo transbordar incontidas lágrimas, que jorraram de um ser banhado de emoção, por conta do amor e carinho entalhados com o cinzel de mais de 4 décadas de estrada.
Tudo isto me fez mergulhar numa ação de graças a Deus que me concedeu tantos tesouros. Entre sol, poeira, chuva… Pedi a Renato Teixeira e Almir Sater para ativarem o “Tocando em Frente” pois, a estas alturas em que os cabelos estão ficando prata, melhor mesmo é puxar o fio que nos leva numa viagem ao passado, transformando em trilha sonora os acordes de minha abençoada existência que se permite entoar: “Ando devagar/ Porque já tive pressa/ Levo esse sorriso/ Porque já chorei demais”. // Hoje me sinto mais forte/ Mais feliz quem sabe/ Só Levo a certeza/ De que muito pouco eu sei/ Eu nada sei.
Minh’alma se reveste de júbilo e gratidão, pois a bondade infinita de Deus distinguiu-me com o Ministério Presbiteral. E agora já se passaram tantos anos! A inconfundível intercessão de Nossa Senhora, de São José, de Sant’Ana e de Santa Rita de Cássia explicitam do que a Providência Divina é capaz: trazer-me à alegria de consolidar minha Vocação, pois viver e ser Padre para mim é a mesma coisa, dado que minha vida é ser Padre.
O Sacerdócio é dom e mistério que decorre do caráter sacramental, tendo como ponto fulcral a Eucaristia. Traz consigo o aspecto oblativo: oferta e reparação. A vocação se dá por iniciativa de Deus. Ele chama e concede o dom gratuitamente. Quem ouve, atende e vive livremente o SIM aos desígnios de Deus a seu respeito.
O Ministro Ordenado deve contemplar o Amor de Deus em favor de toda a humanidade, imergindo a própria vida n’Aquele que realiza a Salvação. O protagonismo da Redenção é de Deus, pois “o Senhor chamou os que Ele quis” (Mc 3, 13). Quem opera é Ele. Quem realiza os Sacramentos é a ação do Seu Espírito Santo. O Projeto Divino se dá através da frágil condição daquele que foi ungido por Deus. Com isto, seus gestos e ações ultrapassam os limites da contingência humana e ganham características de eternidade.
A força da missão sacerdotal baseia-se na união hipostática, que permitiu a Jesus ter Sua Pessoa revestida de duas naturezas: divina e humana. Esta lhe deu a possibilidade de ser Sacerdote: dom e oferta. Aquela proporcionou caracteres infinitos à oferenda. Assim Deus conferiu totalidade ao gesto a Ele oferecido. A oferta humana, mais generosa que fosse, seria incompleta, seja quanto à adoração, louvor, súplica ou reparação. Em Cristo, reúne-se a humanidade inteira em perfeita oferenda ao Pai, pela força do Espírito Santo.
No Calvário, Jesus esgotou a totalidade do mistério da Salvação. No entanto, Seu propósito em dar-lhe dinamicidade ininterrupta transparece ao completar Seu “êxodo”, antes da ascensão, quando instituiu o Mandamento do Amor, os sacramentos da Eucaristia e da Ordem.
Ser Padre é agir in persona Christi, sendo ordenado para Lavar os Pés da Humanidade, ou seja, prestar-lhe o serviço da salvação. É entregar a vida a Jesus para com Ele, por Ele e n’Ele, tornar-se oferta gratuita à humanidade. Nenhum encargo, dentro ou fora da instituição eclesiástica, sequer alcança tamanha honra e igual responsabilidade. Sua felicidade consiste em ser um com Jesus Cristo, abrindo-se à graça sacramental, onde Deus age através da natureza humana. A eficácia da missão do Sacerdote se dá por ser ele Alter Christus.
Como quem toma um refrescante copo de água mineral e não quer desperdiçar nenhuma gota, li vagarosamente as cartas dos Bispos, Sacerdotes, diáconos, seminaristas, professores, mulheres e homens que, um dia, entraram pela porta do meu coração, onde os guardo debaixo de sete chaves. Tudo isto me faz incluir uma interminável lista de pessoas que têm efetiva participação neste Te Deum Laudamus do 42.º Canteiro do Ministério Presbiteral a mim confiado. Ah! Não posso me esquecer de que foi com a Serva de Deus “Floripes Dornelas de Jesus”, a Lola, que eu aprendi: “Ser Padre é como quem planta um Jardim. Cada ano que passa, corresponde a um canteiro. Com o passar do tempo, o Sacerdote contempla a beleza de seu Jardim. Então, com o coração agradecido, posso me apresentar: EU, JARDINEIRO DO SENHOR!
Padre Paulo Dionê Quintão Pároco de Santa Rita de Cássia, em Viçosa – MG