Paróquia Santa Rita de Cássia

Uma tempestade lançava ondas sobre o barco no qual estavam os

discípulos e o Mestre divino que se achava descansando. Apavorados os
apóstolos O despertaram e, Ele com seu poder, serenou a procela.
Cristo, porém, chamou a atenção de seus epígonos que estavam dominados
pelo temor: “Porque estais com tanto medo? Como ainda não tendes fé?
(Mc 4,35-40) É que eles não haviam ainda abandonado a maneira humana
de conhecer Jesus para poder depositar um ato de fé incondicional
nele, o Salvador que ali estava. Cumpre um verdadeiro conhecimento de
Jesus e de sua capacidade que salva pela força e pela glória que lhe
pertencem. Ao acalmar o vendaval Ele demonstrou seu domínio sobre o
vento e sobre o mar. Os discípulos sem a fé, que lhes seria mais tarde
fruto da manhã de Páscoa, se apavoraram com a tempestade mesmo estando
Jesus junto deles. Cristo diagnosticou a causa de seus temores e,
entre elas, a falta de absoluta confiança nele. Viu neles pessoas de
fé diminuta. É a fé profunda que possibilita compreender toda a
grandeza de Jesus no qual se deve inteiramente confiar. Os apóstolos
puderam ultrapassar de uma compreensão exterior dos atos de Cristo a
uma compreensão interior de sua divindade. Passaram com o tempo dos
gestos exteriores do Mestre, ao Jesus Redentor. Isto mostra que se
limitar aos gestos exteriores do Filho de Deus, ao Jesus da história
pode impedir que se chegue a um ato de fé verdadeiro. Eis uma das
grandes lições a se tirar do maravilhoso episódio da tempestade
acalmada. Ainda como Cardeal, Ratzinger, o Papa São João Paulo II,
alertava sobre a tentação de se reduzir Jesus-Cristo, o filho de Deus,
a um simples Jesus histórico, a um mero homem, embora se professando
seu poderio extraordinário. Ainda que não se negue abertamente a
divindade de Jesus, cria-se um Jesus à medida terrena, “um Jesus
possível e compreensível segundo os parâmetros da historiografia
humana”. Advertia ainda o então Cardeal Ratzinger: “Este Jesus
histórico é um artefato, imagem de seus autores e não a imagem do Deus
vivo. Não é, porém, o Cristo da fé que é um mito, mas o Jesus
histórico que não passa de uma figura mitológica, auto inventada por
falsos intérpretes. Entretanto o Jesus fraco, fatigado e dormindo e o
Jesus forte que serena a tempestade são a mesma pessoa, o único Filho
de Deus, Redentor onipotente. Cumpre se tenha uma fé firme no Verbo
encarnado manifestada na observância integral de todos os seus
ensinamentos e não apenas recorrer a Ele nos instantes cruciais como
se Ele fosse apenas um super. Homem”. Pelo Evangelho de hoje Jesus
quer nos falar desta fé verdadeira, integral que leva os cristãos a
ver sempre nele o Deus e homem verdadeiro e não apenas o protetor nos
momentos tempestuosos da vida. Jesus está então a interrogar: “Porque
estais com medo? Como ainda não tendes uma fé verdadeira que envolva
toda a vida em cada instante?” Nada, portanto, de uma atitude eivada
de ceticismo, de dúvida, de angústia, de medo, de falta de coragem. A
fé em Jesus, Deus e homem verdadeiro, deve dar ânimo total e, por
outro lado, está fé exige coragem para enfrentar os problemas da vida
sem se entregar a mórbidas agonias. A fé em Jesus, enquanto é um ato
de confiança e não de simples adesão intelectual, deve se refletir na
conduta, no modo de ser do cristão que nunca se deixa dominar pela
tristeza, pela depressão, pelo desânimo, pelo pavor. Quem tem fé
verdadeira em Cristo sabe que não apenas Ele caminha a seu lado e pode
agir nos momentos tempestuosos da existência, mas ainda que Ele deve
ser a vida da vida de cada um, de seu seguidor que está sempre
disposto a fazer em tudo a vontade do Mestre divino e, assim, jamais
se deixa dominar pela angústia, pelo medo, pois repete sempre com São
Paulo: “Eu tudo posso naquele que é a minha fortaleza”. (Fil 4,13)
Então, sim o. discípulo de Cristo conhece o verdadeiro caminhar
espiritual. Lá na barca Jesus viu o interior dos apóstolos apavorados,
pessimistas, dado que tudo estava perdido para eles e, não obstante,
ali estava quem era todo poderoso, não apenas para amainar a ventania,
mas que devia dar segurança absoluta, afastado todo o doentio temor.
Jesus não via então uma fé absoluta que impregnava inteiramente
aqueles apóstolos apavorados. Como hoje em dia tantos entregues a suas
inseguranças interiores, aos abatimentos, às amarguras por não
depositar absoluta confiança em Jesus presente na sua Igreja, ao lado
de seu verdadeiro discípulo que nele pode e deve inteiramente
acreditar. Esta é a questão que Jesus oferece a seus seguidores no
coração das tempestades de suas vidas:” Por que ter medo se Ele está
junto deles”. O questionamento de Jesus é importante porque a fé não
consiste em dizer “eu creio” quando tudo vai vem, mas em dizer “eu
creio e confio em Ti” quando surgem as tormentas. A fé deve se apoiar
em Cristo, impregnando inteiramente o ser de seu discípulo, que deve
viver todos os acontecimentos com Ele e, portanto, sem vãos temores,
pois Ele não abandona nunca quem deposita nele total confiança. Jesus
coloca em paralelo fé e destemor, confiança e coragem. Professor no
Seminário de Mariana durante 40 anos.