Paróquia Santa Rita de Cássia

Na narrativa da cura do surdo mudo São Marcos desceu a detalhes que oferecem mensagens luminosas para o crescimento espiritual dos seguidores de Cristo (Mc 7,31-37). Todo o ritual empregado por Jesus nesta oportunidade é, de fato, profundamente significativo. Primeiro São Marcos mostra que Ele tomou consigo à parte, longe da multidão, aquele que nem ouvia nem falava.

Houve então um encontro pessoal no qual o divino Taumaturgo numa linguagem não verbal aprofundou a fé daquele que voltaria a se imergir num contato verbal com as outras pessoas. A surdez e o mutismo físicos afetavam profundamente a relação daquele doente com os outros, dificultando o intercâmbio de ideias, donde uma natural marginalização social. Quando nos dirigimos a Deus, para evitar a surdez e o mutismo espirituais é preciso ser levado pelo Espírito Santo à parte, ou seja, longe de tudo que impede uma relação pessoal com a divindade. Do contrário, Deus não será percebido e não há condições de escutar nem de falar com Ele.

Ele não está no barulho nem na agitação. O silêncio é a própria lei e o hábito de Deus, como bem observou Gaston Courtois. À parte, somente com Jesus. é que o surdo mudo estará depois em condições de produzir frutos no domínio do visível e do concreto no meio da multidão, nem falando demais, nem deixando de escutar os outros. Após levar o surdo mudo à parte Jesus colocou dois dedos nas suas orelhas e lhe tocou a língua com um dedo humedecido de saliva. Estes gestos um tanto quanto estranhos para o contexto atual eram assaz correntes na medicina popular no tempo de Cristo, não só em Israel, como em todo mundo greco-romano. Jesus, porém, queria deixar uma lição espiritual que ultrapassa tal conduta.

Ele, de fato, é o médico divino que cura, mas quer uma grande proximidade dele para afastar os males que impedem de ouvi-lo e de conversar com Ele. Ele não deseja, portanto, uma comunicação à distância. Eis porque Ele disse que estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos e se deixou ficar no Sacramento da Eucaristia para se unir a cada um de seus fiéis. Não quer, realmente, entrar em contato conosco por telefone, pelo e-mail ou pelo skype. No momento da comunhão ou no instante de uma prece recolhida seja onde for, Ele se faz presente e quer um bate papo, um colóquio amigo. É a hora da cura, da redenção, da salvação. Pode então manifestar seu poder miraculosos. Ele que suportou todas os nossos males do corpo e da alma sabe bem aquilatar as moléstias de cada um.

Ao sanar o surdo mudo Jesus levantou os olhos ao céu, ou seja, a cura que Ele operaria estaria ligada a uma profunda atitude de prece dirigida ao Pai. Os teólogos definiriam a oração como a elevação da alma a Deus. Cristo quer nos lembrar que, imergindo no contato com o Ser Supremo, todos os bens chegam aos seres humanos. Após sua ascensão ao céu Ele seria junto do Pai nosso perpétuo intercessor. Além disto, Ele, como relatou São Marcos, suspirou, lembrando de todas as aflições e dores humanas e, em seguida, pronunciou uma palavra salvadora: “Effatá” – que significa abre-te. Era uma ordem um programa de vida. Uma única palavra que curou duas enfermidades, isto é, a do ouvido e a da língua daquele que estava diante dele. Entretanto, esta palavra “Effatá” atravessaria os séculos para todos os cristãos que estivessem na solidão ou envolto em rancores. Para todos que estivessem presos num passado tenebroso ou travados pelo fardo de tristes lembranças. Para aqueles que fechados em mesmos não escutassem o clamor de seus irmãos ou não se dispusessem a aliviá-los com uma palavra salvífica.

Trata-se de uma abertura a tudo que Ele propõe a cada uma em todas as circunstâncias. Abertura à palavra de Deus que oferece força e liberdade e abre espaços à esperança. “Effatá”, uma palavra que, em seu sentido profundo, resume a mensagem e toda a obra de Cristo, segundo o papa emérito Bento XVI. Quando Jesus a pronunciou Ele curou o surdo mudo. Os dois males estão ligados, pois frequentemente os mudos são mudos porque são surdos, dado que nada podem dizer, porque eles jamais ouviram, crescendo num mundo sem palavras e sem sons. É o que acontece com muitos cristãos em sua oração: sua surdez espiritual os torna mudos e tímidos. Por não escutar a voz divina, lhe faltam palavras para falar ao seu Senhor e para falar dele com os outros. O mutismo é muitas vezes causado pela falta do dom. de si mesmo à evangelização. Cumpre, portanto, estar atentos e pedir sempre a Jesus que nos preserve ou cure destas doenças espirituais. 


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.