Paróquia Santa Rita de Cássia

Depois do entusiasmo de seus conterrâneos na Sinagoga de Nazaré, o
furor (Luc 21-30). Num único episódio do Evangelho temos aqui a
síntese de toda a vida de Jesus: aplausos e perseguição. São Lucas
registrou que todos admiravam-se das palavras que saiam da boca de
Jesus, depois, porém, se encheram ira e O expulsaram da cidade e
queriam até jogá-lo monte abaixo. Aí então uma cena admirável: “Jesus
passando pelo meio deles, seguia o seu caminho”. Ele demonstrou então
todo sua grandeza, enfrentando com galhardia aqueles que o afrontavam.
Ele com razão poderia mais tarde afirmar que era o bom Pastor que
daria sua vida por seus seguidores, oferecendo-lhes uma garantia
extraordinária. Isto O distinguiria dos mercenários, mesmo porque os
que são de seu redil O conheceriam e reconheceriam a sua voz. Trata-se
de uma relação pessoal que leva a uma intimidade mútua entre Ele e
quem lhe é fiel, pois Ele “sonda os rins e os corações” (Ap 2,23). Por
isto Ele aos poucos iria introduzindo quem O seguisse no conhecimento
profundo de Deus, da Sua sabedoria, de Sua onipotência. Eis aí, aliás,
a grande mensagem de todo o Evangelho, ou seja, o encontro em Jesus
entre o Ser Supremo e o ser humano. Esta é uma verdade que não é
propriedade dos grandes místicos, mas que deve ser a realidade de
todos os cristãos, isto é, a íntima relação entre Ele e seu seguidor,
um pertencendo ao outro e daí o mútuo conhecimento que disto decorre.
Donde a arguição de São Gregório Magno numa de suas mais belas
homilias: “Vós, irmãos caríssimos, se sois de Cristo, vede se vós O
conheceis de fato, vede se percebeis, realmente, a luz da verdade pelo
amor que Ele vos devota”. Em Nazaré, enfrentando os que O expulsaram
da cidade e O queriam matar, Jesus deixa uma mensagem de esperança e
alerta para que não se proceda como seus companheiros de infância que
a princípio O acolheram, mas que em seguida duvidaram e exigiram
milagres que lhes provassem sua origem divina. Queriam sinais como os
que Ele fizera em Cafarnaum. O plano de salvação de Deus era diferente
do que os nazarenos julgavam, mas ao enfrentá-los Jesus mostrou sua
força admirável e, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.
Para muitos neste século vinte e um a mensagem de Jesus suscita
contradição. Para aqueles cristãos que O têm ou O julgam possuir,
mas que se deixam levar na sua inteligência e no seu coração a
dúvidas, acontece o mesmo que se deu em Nazaré não compreendendo o
mistério do Filho de Deus. Jesus, porém, passa no meio dos descrentes
e prossegue sua obra redentora de reconciliação de todos com o Pai que
está nos céus. Muitos não chegam a conhecer o Jesus poderoso que não
se curva perante os absurdos de uma mídia contrária ao Evangelho, à
obra de Deus feita nele e por Ele. São aqueles que se mostram como o
reflexo dos descontentes de Nazaré, mas Jesus, que se torna sinal de
contradição, prossegue sua caminhada na história, redimindo aos de boa
vontade, para aqueles que creem em seu poder salvador e sabem
preservar o dom preciosismo da fé. Alguns se esquecem que “Jesus
Cristo é o mesmo ontem e hoje: Ele o será para a eternidade”! Cristo
ostentou sempre qualidades excepcionais. Ele herdou de nossa condição
humana a capacidade de sofrer e de morrer. Seu corpo como os nossos
era sensível à fome e à sede, à fadiga e por isto tinha necessidade de
dormir. Nele vislumbramos as afeições humanas mais positivas como a
amizade e era sensível às ingratidões. Assim sendo muito sofreu com a
atitude dos habitantes de Nazaré, como mais tarde terrível foi sua
agonia no Horto das Oliveiras e sua dolorosa paixão e morte na cruz.
Como Deus, porém que era, admiráveis os seus milagres e Ele pôde
preceituar “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. Nele
brilharam as mais excelsas virtudes. Entre os atos heroicos de sua
vida está o episódio narrado no Evangelho de hoje, quando por entre a
turba injustamente enfurecida “Jesus passando pelo meio deles, seguia
seu caminho” No dia de sua transfiguração no monte Tabor, seu rosto
mais brilhante que o sol no seu fulgor e com veste igual a neve, Ele
se apresentou. Por tudo isto, do nascer do sol até o seu ocaso,
louvado seja sempre o Senhor Jesus! A Ele honra, gloria e poder. Ele
é, de fato, o nosso Deus onipotente. Ele é o resplendor do Pai,
expressão de seu ser e é, por isto, segurança de nossa vida. Cumpre,
pois, seguir o conselho de São Paulo, que nós todos reflitamos como
num espelho a glória do Senhor Jesus. Transfiguremo-nos nesta mesma
imagem, que deve ser em nós, cada vez mais resplandecente.

Professor
no Seminário de Mariana durante 40 anos.