Paróquia Santa Rita de Cássia

 

Cansado da viagem através da caminhada no deserto, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó (Jo 4,5-42). Era por volta do meio dia e ali chega uma mulher samaritana para apanhar água. A ela Cristo pede: “Dá-me de beber”.

Ele era Deus que havia assumido um corpo humano com todas as suas limitações e, naquelas circunstâncias, dele a sede se apossara. Pendente da cruz lá no Calvário uma das suas últimas palavras seria “Tenho sede”. Em ambas as ocasiões, era Deus que, em seu Filho encarnado para a salvação da humanidade, revelava algo de seu mistério redentor, pois, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Ele era um todo-poderoso Senhor. Eis também porque, sabiamente, o diálogo com a samaritana ganhou um tom espiritual, pois Jesus revela àquela mulher que era Ele quem possuía uma água viva que apaga toda e qualquer sede. O papel se inverte então, dado que era ela quem passa a lhe suplicar: ”Senhor, dá-me desta água”.

Foi o instante precioso no qual o Mestre divino lhe desvenda os dois dramas de sua vida, a saber, sua desordem conjugal, pois ela diz que não tinha marido e sua dubiedade religiosa, uma vez que ela não sabia onde se devia adorar o Criador, a saber, se naquele monte ou em Jerusalém.

Ali estavam os dois obstáculos principais que impediam que ela pudesse estar unida a Deus. Jesus, porém, a leva, sem, porém, a julgar, a reconhecer humildemente os dois impasses da sua vida, as duas sedes insatisfeitas que tornavam infeliz sua existência. Naquela mulher estava a figura da humanidade entregue a si mesma, vítima de sua desobediência às ordens divinas desde o pecado original. Donde os conflitos amorosos e religiosos. O homem sem a graça de Deus não mais atingiria a plenitude do amor e nele restaria sempre a sede da verdade e do bem.

A água viva de que fala Jesus é o símbolo da presença do Espírito Santo que viria para sanar a sede do verdadeiro amor aos homens e ao próprio Deus, Seria, portanto, necessário abrir o coração, retirar todas as fendas que deixassem escapar esta água espiritual, que restaura no ser humano toda sua dignidade.

É esta reflexão que leva o cristão a bem se utilizar da quaresma, para uma perfeita revisão de vida, colocando-se inteiramente dentro dos parâmetros divinos. As ilusões do atual contexto histórico deturpam tantas vezes a conduta humana e o ser criado ao invés da água viva toma vinagre que não pode estancar sua sede de eternidade junto de Deus após ter feita sua vontade aqui na terra.

Eis então o tempo para que cada um reconheça humildemente seus erros e os sane com o socorro do Todo-poderoso Senhor. Aí está bem retratada situação do homem perante Deus. A samaritana tinha sede de amar e de adorar. Jesus oferecia a água viva de seu amor. Aí está o sentido de sua sede junto daquele poço e, um dia, lá no Calvário. Ele pôde dizer: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância’ (Jo 10,10). Junto dele há a solução para os mais profundos anseios do ser humano, sobretudo do homem ocidental contemporâneo.

Este tem muitas vezes sede de riqueza, de acumulação de bens, de honras, de prestígio, de consumo, de prazeres tantas vezes desregrados. Dá-se o que Deus queixou através do Profeta Jeremias: “Meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram o manancial de águas vivas e cavaram cisternas rotas que não retêm águas”. (Jer 2,13). Donde o drama vivido por muitos. É preciso parar e refletir sobre os desejos que só servem para aumentar a sede espiritual. É preciso que a sede humana encontre a sede de Jesus para que, como ocorreu com a samaritana, a vida ganhe novos rumos. Disto resultará a conquista da vida eterna. Jesus leva sempre a conhecer o dom de Deus.

É para oferecer este dom que Ele cruza os caminhos de cada um. O importante é sempre dialogar com Ele como fez a samaritana. Ele interpela para depois pronunciar a palavra que emancipa e salva. Ele conhece a história de cada um, sua esperança e também suas fragilidades. Mas Ele sabe também que no fundo de cada coração, como acontecia com a mulher de Samaria, há um desejo profundo de poder beber a água viva que Ele oferece para se atingir a felicidade eterna. Jesus é sempre aquele que salva. Ele quer tudo para tudo santificar, operando maravilhas como fez com a vida da samaritana. Ele coloca a lume as feridas interiores para poder agir e abrir um caminho de total felicidade e verdadeira liberdade. O diálogo com Jesus é construtivo porque Ele não emprega pressões morais, mas age no nível da verdade. Suas palavras são sempre de misericórdia e, por isto, sumamente libertadoras. 


Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos